Localizar Novas Avaliações Artigos Links Notícias e Dicas Wine bars e Adegas

Artigos

Vertical Haut-Brion - um privilégio participar
Por Claudio Rocha Miranda*

25 de setembro. Primeiros dias de uma ainda preguiçosa primavera carioca. Noite com um friozinho não muito comum por estas bandas, nesta época. Parece que especialmente encomendado para uma degustação do quilate de um Haut Brion. Zona sul do Rio na casa Mar de Vinho do escriba e um dos maiores conhecedores de vinho no Brasil, Marcelo Copello. Chegamos eu e Lúcia, minha mulher, uma meia hora antes e fomos calorosamente recebidos, pelo próprio. Minutos depois chegaram os outros participantes, cerca de umas dez seletas pessoas do mundo do vinho. Mais tarde, após sentarmos numa sala apropriada para palestras e degustações, trazidas pelo mãos do José Augusto Saraiva, proprietário da Vitis Vinífera e anfitrião da noite, adentra o recinto, como verdadeiras celebridades, a seleção de garrafas do vinho Haut-Brion safras 1988, 1996, 1998, 2001 e 2002. Colocadas na vertical sobre uma mesa coberta de veludo vermelho, elas quase que posam para diversas fotos tiradas pela maioria dos participantes. Esta sessão de fotos, que se iniciou timidamente, levou uns bons 20 minutos. A seguir, as garrafas foram abertas com toda calma como manda o figurino. Rolhas em perfeito estado e o líquido, derramado em decanters diferentes para atender as especificidades de cada safra que a seguir, foram levados para outro local já que a proposta era de uma degustação às cegas.

 
Haut-Brion  

Enquanto o vinho decantava e Marcelo Copello falava-nos sobre o histórico do Château Haut-Brion, degustávamos, para abrir os serviços, um Champagne Michel Gonet Bruit Reserve cuja qualidade já nos dava indícios do que de bom a noite tinha para nos oferecer.
O Château Haut-Brion, construído por Jean de Pontac em 1550, produzia o vinho que levava o nome “vin de Pontac” por ser ele de família associada ao comércio da bebida. Parece que desde sempre este vinho faz bem à alma e também ao corpo, pois afinal Jean de Pontac morreu aos 101 anos!

 

 
Chateau Haut-Brion  

Depois de passar pelas mãos de alguns proprietários, Clarence Dillon, um banqueiro americano, o comprou em 1935. Joan Dillon, sua neta, ex-princesa de Luxemburgo e Duquesa de Mouchy, administrou o Châteu HB de 1975 até 2008, quando seu filho Príncipe Robert de Luxemburgo assumiu a presidência da Domaine Clarence Dillon. Sob um solo terciário composto por cascalho, areia e argila os vinhedos do HB, estão entre 12 e 15 metros acima do leito de dois córregos, o Peugue e o Ars. Possuem 43 hectares com 8 mil vinhas por hectare de idade média de 36 anos. As Cepas na proporção de 45% CS, 37% Merlot e 18% CF, um autêntico corte bordalês, produzem entre 216.000 a 234.000 garrafas/ano do Grand Vin. A sua elaboração se dá a partir de um processo iniciado pela colheita manual com 100% de desengaço e esmagamento. Após esta fase inicial segue a Maceração-Fermentação que varia entre 15 a 30 dias, dependendo da safra. A fermentação maloláctica ocorre com leveduras autóctones, em tanques de inox de 22.500 litros , em temperatura controlada por volta de 30° C. Aliás, em 1961 o Château foi o primeiro a fazer uso de tanques de inox no seu processo de fermentação. Seu amadurecimento ocorre entre 18 a 30 meses em barricas novas, de produção própria, onde é clarificado com claras de ovo. Trata-se de um dos últimos vinhos da região de Bordeaux a ser engarrafado.
Após estas úteis informações, que nos faziam sentir em casa e já íntimos do vinho, surge na tela uma declaração feita pelo presidente do Château HB Jean-Philippe Demas, quando indagado sobre como ele descreveria o Haut–Brion a alguém que nunca o provou?
“A pergunta é difícil. O melhor a fazer é prová-lo, pois palavras não bastam... A primeira palavra seria: complexidade. Honestamente, o que tenho a dizer do HB é que não é um vinho fácil.
É necessário conhecimento para apreciá-lo completamente. Eu não o recomendaria a quem está começando a gostar de vinho. É necessário antes um tipo de treino, com vinhos mais fáceis de beber.”

 

 
HB Jean Philippe Demas - presidente  

Esta declaração de que era necessário conhecimento para apreciá-lo completamente acrescida de sua recomendação contrária a quem estava começando a gostar de vinho levantou, ao menos em mim, à dúvida se estaria à altura ou não daquela degustação. Aliás, é sempre difícil sabermos se estamos no nível ideal para degustar um grande vinho. Temos ou não “litragem” suficiente para apreciá-lo ao máximo? Para poder avaliar se estamos em condições de apreciar um excelente vinho requer, no mínimo, a certeza de que sempre poderemos apreciá-lo mais e melhor à medida que aumentarmos nosso conhecimento e aperfeiçoarmos nossa percepção. Afinal aquele líquido milenar apresenta várias características e nuances, à medida que ganhamos experiência. Após estes instantes de reflexão sobre minha capacidade de apreciar aquele santo líquido na sua totalidade, cheguei à conclusão que certamente daqui a alguns anos e muitos outros litros de vinho depois, terei mais condições de fazê-lo melhor. No entanto, como lá já estava, restava-me prosseguir ainda que algum dia pudesse vir a desfrutar daqueles momentos de prazer, melhor.
Após a apresentação do Château, sua história, seu terroir e seu método de elaboração foi-nos apresentado detalhes de cada uma das safras que degustaríamos a seguir. Finalmente, provamos os cinco vinhos às cegas, com a ordem das safras embaralhadas. A seqüência foi: 1996, 2001, 1998, 1988 e 2002. Esta ordem foi, pela maioria dos presentes, apontada corretamente. Sendo que os prediletos de todos, seguiu a máxima que diz: “um bom vinho quanto mais velho, melhor” . Foram eles, em 2° lugar o 1998 e em 1° lugar, com uma votação apertada, o 1988. Abaixo as características desta safra e as impressões do Marcelo Copello (MC) sobre o vinho, bem como o número de pontos dados por ele, pelo Wine Spectator (WS) e pelo Robert Park (RP).

Château Haut-Brion 1988

Ficha técnica:

365 mm de chuvas (95 % da média)

Soma das temperaturas: 3230 °C (101 % da média)

Dias com +30°C: 11 (bem abaixo da média)

Colheita de 28/09 a 14/10 (tardia)

Recomendação - 2000 a 2025 (longevo)

Sobre a região de Bordeaux em 1988: inverno e primavera humidas, verão quente e seco, com um pequena chuva em setembro. Boa maturação com cascas grossas e ricas. Vinhos estruturados e poderosos.

 

 
Chef Ciça Roxo e Marcelo Copello  

Impressões Marcelo Copello:

“Vermelho granada entre claro e escuro com reflexos alaranjados. Aromas intensos, de grande complexidade, com bastante evolução mas ainda ótimo frescor, muitas notas de mineralidade terrosa, bosque humido, pelica, frutas secas, defumados, cacau amargo, café. Paladar de bom corpo, taninos finíssimos, um veludo, muito longo. Um vinho de extremo equilíbrio e elegância. Está já no auge e deve se manter ainda por ao menos mais uma década”.

Pontuação : MC 98, WS98 (“Um dos melhores Haut-Brion já feitos”) e RP 91 (“Comparável ao 1966, mas mais concentrado e poderoso”).

Menu

-  Flan de foies gras com avelãs tostadas e caju confitado

Vinho: Douceur de Lesparre 2004

- Pavê de tilápia ao forno; musseline de camarão e emulsão de coentros

Vinho: Vinho Surpresa! (Astrolabe 2004)

- Arroz de pato à antiga moda portuguesa

       Vinho: Chateau La Terrasse de l'Ile Verte 2001

- Figos assados com creme de amêndoas

Vinho: Beaulieu Defrutum

 
Cláudio e Lúcia da Rocha Miranda  
Parabéns à sofisticada ação de marketing de José Augusto Saraiva, proprietário da Vitis Vinífera e anfitrião da noite e também ao Marcelo Copello por seu extraordinário conhecimento e dedicação ao mundo do vinho. Àqueles que não tiveram a sorte de participar, fiquem de olho e jamais percam uma oportunidade destas, pois o Haut-Brion, realmente, faz jus à fama !


* Cláudio Rocha Miranda é carioca, economista, professor da FGV e CEO de empresa de plano de saúde.



<< AnteriorPróxima>>

 

Copyright © 2001-2010 • Adegas & Vinhos •
E-mail: suporte@adegavinhos.com.br