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Pichon-Lalande, um super second
Por Silvia Cintra Franco*

Famosa pela qualidade de seus vinhos, Bordeaux é igualmente conhecida pelos preços que chegam à estratosfera. Há quem invista nos grand crus classées e nos seconds vins – vinhos produzidos a partir de lotes não utilizados do grand vin ou de vinhas mais jovens. São investimentos sólidos, menos voláteis do que a Bolsa e de maior liquidez em todos os sentidos. Uma garrafa de La Mission Haut-Brion 2005 chegou ao mercado custando “absurdamente razoáveis £1.800” segundo a revista Decanter deste mês e já valorizou 275%, ou seja, £ 6.000. Entretanto, para os amantes do vinho, o melhor investimento ainda é bebê-los.

 
Gildas d'Ollone, a filha e Celso La Pastina  

Felizmente existe em Bordeaux quem se preocupe com os comuns mortais e produza vinhos para bolsos com capacidades diversas. É o caso de Gildas d'Ollone, diretor geral do famoso Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande, ou mais simplesmente, Pichon-Lalande, que produz fantásticos super seconds em Pauillac em 86 hectares de vinhedos (Pauillac e St.Julien), vizinhos aos lendários Châteaux Latour, Pichon Baron e Haut-Bages-Libéral. Gildas d'Ollone esteve esta semana em S.Paulo para um jantar degustação promovido pela World Wine.

 

 
Reserve de La Comtesse 2004  

Degustamos inicialmente um Château Bernadotte 2004 Haut-Médoc (Cab.Sauvignon 59%, 36% Merlot, 3% Cab.Franc, 2% Petit Verdot), produzido pelo mesmo time de enólogos da Pichon-Lalande, os consultores Jacques Boissenot e Hubert de Boüard: um típico Bordeaux clássico, muito fresco, muita fruta, elegante e muito agradável. Por “absurdamente razoáveis”, pode-se dizer com a Decanter, R$ 115,00 na World Wine. O Château Bernadotte pertenceu à família do famoso marechal Bernadotte, que serviu sob as ordens do imperador, casou-se com a não menos famosa Desirée, o celebrado grande amor de Napoleão e para arrematar tornou-se rei da Suécia em 1818. Um belo vinho que faz jus ao nome. O segundo vinho foi um Reserve de La Comtesse 2004, fino, delicado, mais complexo e sedutor, o segundo mais vendido no Brasil (R$239). Também um corte de 58% Cab.Sauvignon, 36% Merlot, 6 Cab.Franc. É o segundo vinho do Château, expressão do estilo da casa.

 

 

 
Chateau Pichon Longueville 2004  

Finalmente, acompanhando o cordeiro um autêntico Château Pichon-Lalande 2004 de arrebatar corações, sedoso e de grande equilíbrio entre potência e finesse (45% de Cab.S., 35% Merlot, 12% Cab.Franc e 8% de Petit Verdot, R$ 597). Um vinho para guardar de 50 a 60 anos ou tomar já. Com muito prazer.

 

Gildas d'Ollone nos revelou algo sobre a tendência em Bordeaux de reduzir o rendimento dos vinhedos. Antes produziam em Pichon-Lalande 65% e agora passaram a 45%. Há em Bordeaux quem já tenha reduzido a 30%. Entretanto, Gildas d'Ollone observa que a redução do rendimento das vinhas resulta em mais açúcar, fruta e álcool e Pichon-Lalande resiste a fazer vinhos do Novo Mundo. “Esta é a minha função”, declara com orgulho, “manter o estilo de Pinchon-Lalande”: fruta, finesse, boa concentração, complexidade, equilíbrio entre potência e finesse. E lamenta que alguns críticos como Robert Parker confundam finesse com aguado... No século 18 os Châteaux Pichon-Lalande e Pichon-Baron eram uma única propriedade. Com a morte em 1850 do Baron Joseph de Pichon Longueville a propriedade foi dividida entre os herdeiros. Em 1978 a lendária May-Eliane de Lencquesaing, tia de d'Ollone, assumiu o controle do Château e é hoje reconhecida por ter conduzido Pichon-Lalande ao status de “super second”, categoria superior entre os deuxième crus de 1855. Em 2007, escolheu-se a família Rouzaud (Louis Roederer) como compradora da propriedade e d'Ollone mantém-se na direção.

Serviço: World Wine (11) 3085-3055

* Silvia Cintra Franco é escritora, enófila e sócia da Associação Brasileira de Sommeliers.



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