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Encontro Mistral, aula magna de puro prazer.
Por Silvia Cintra Franco*

 
Encontro Mistral - Vídeo
 

Encontro Mistral: Este é um dos encontros mais esperados pelos brasileiros amantes do vinho. Vem gente de Brasília, Goiânia, Rio Grande do Sul, interior de São Paulo etc. para degustar e conversar com 85 dos mais importantes nomes do mundo do vinho: proprietários, enólogos e diretores que servem pessoalmente a sua taça e se dispõem a conversar com você, falar de solos, vinificação e o que mais você quiser... até o limite da rouquidão, como se pôde observar no último dia, no Rio de Janeiro.

 

 

 
Renata Braune e Sofia Carvalhosa  

O que faz este evento da Mistral único e diferente de eventos semelhantes como a Wine Experience, organizado pela revista Wine Spectator, é a preocupação de “limitar o número de participantes para permitir perfeitas condições de degustação dos vinhos e conversa com os produtores”, como frisa Ciro Lilla. Excelente idéia, pois embora eu tenha estado com Philippe Menguy, diretor da Bollinger, na Wine Experience de Nova York, a multidão, mais de 1.200 pessoas, tornava impossível qualquer conversa! A organização do evento, o buffet, e os vinhos servidos fazem valer o preço do ingresso, R$ 290,00, ou US$170, bem menos do que os US$ 400 das quatro horas do Grand Tasting da Wine Experience.

Para quem deseja se aprofundar no conhecimento dos vinhos, degustar é o caminho. E um evento desta magnitude que associa a degustação à oportunidade de ouvir o que os produtores têm a dizer é equivalente a uma Aula Magna de puro deleite. Sem dúvida, beber grandes vinhos e conversar com seus produtores, é a melhor universidade.

 

 
Bollinger  

Da França, a destacar nomes de qualidade como Bollinger, Louis Jadot (de reputadíssimos brancos elegantes e harmoniosos), Joseph Drohin, Faiveley e Chapoutier. Ah, e para quem ama Riesling e Gewürztraminer, lá estava a Dopff au Moulin da Alsácia e os da Alemanha: Joh.Jos. Prüm, Dr. Bürklin-Wolf com vinhos elegantes, delicados, maravilhosos. Na verdade, as principais regiões vinícolas do mundo estavam muito bem representadas.
Pudemos ouvir e crivar de perguntas Philippe Menguy da Bollinger, maison que se encontra na elite das vinícolas francesas. Seu Spécial Cuvée Brut 1999 conta com uma importante base de Pinot Noir e evolui em pequenas barricas: é fresco, um brioche delicado no nariz, rico em textura, complexo, clássico e elegante.
A Ayala, que nada tem a ver com a Espanha, mas com Aÿ, foi retomada pela Bollinger e se encontra em franca reformulação. É deliciosa, com um estilo cremoso e notas evoluídas. As últimas tirages sem açúcar mostram um ganho de expressão e de pureza. A notoriedade dos champanhes de Aÿ, Bollinger e Ayala, repousa tanto na superlativa qualidade de seu terroir (90% Pinot Noir) como pela posição privilegiada junto ao rio Marne, que no passado facilitava o comércio.

 

Luis Pato

 

De Portugal, vieram Luis Pato, o mago daBairrada, com seus vinhos de Baga domada e elegante; e Dominic Symington, proprietário da Chryseia, cujo Chryseia 05 foi considerado Best Old World Red pela Decanter. Assim como o branco de Niepoort, o Redoma Reserva 06, foi considerado Best Old World White.

 

 

 

 

 

 
Ca' del Bosco  

Da Itália diziam presente Vietti e Luigi Coppo, ambas de ótima relação custo benefício. Masi e seus deliciosos Amarone e Campofiorin Ripasso. Da Lombardia, o delicioso espumante Franciacorta da Ca' del Bosco, minha paixão italiana. De Montalcino, com seus famosos Brunellos e Morelinos di Scansano, vieram nada menos do que diretores da Biondi-Santi, Il Greppo, e de Biondi-Santi, Montepó (do filho Giácomo que esteve entre nós no ano passado) e que não costumam freqüentar feiras e encontros. De Il Greppo foi servido um Rosso di Montalcino delicioso e pronto e um Brunello Riserva, austero e tradicional, ainda na puberdade, pedindo tempo ao tempo para mostrar a que veio ao mundo. Um autêntico infanticídio. Do Castelo de Montepó, o famoso Schidione e o delicioso Morelino di Scansano, que é alegria pura.

 

 
Biondi-Santi Brunello di Montalcino Riserva 2001  

 

Também, aqui compareceram Altesino, Villa Poggio Salvi, Andréa Costanti, a brasileira Noemia D'Amico que trouxe um Falésia Chardonnay delicioso e comanda com o marido a D'Amico. Da Altesino, foi servido um Brunello Riserva 2001, feito somente em safras excepcionais, um tinto raçudo, poderosamente estruturado e que exige anos de guarda para alcançar seu potencial.

 

 

 

 

 
Isole e Olena  
Do Chianti, vieram Isole e Oleana, Badia a Coltibuono e o celebrado enólogo e proprietário do Castello di Ama, Marco Pallanti com o filho de onze anos Arturo de “assistente”. Pallanti não é somente um enólogo tre bicchieri Gambero Rosso, mas um irreverente amante das artes. Seu Castello di Ama tem obras interessantíssimas.

O Cepparello de Isole e Oleana, servido pela proprietária Marta de Marchi é um vinho de arrebatar corações.

 

 

 

 

 
Roberto Coppo e Walter Tommasi da Freetime
 

Em 1976 quando Paolo de Marchi, piemontês de nascimento, assumiu a Isole – propriedade da família na Toscana – trazia juventude e experiência, coisas que nem sempre andam juntas. Tratou de melhorar essa propriedade da região do Chianti Clássico plantando clones selecionados de Sangiovese. Em 1980, sua paixão por esta uva difícil, levou-o a criar o Cepparello, 100% Sangiovese, que imediatamente se destacou da mediocridade dos chiantis da época. É um vinho fantástico, estruturado, notas de defumado no nariz, redondo no palato com taninos e madeira não agressivos. Muita harmonia e equilíbrio.

Arturo e Marco Pallanti do Castello di Ama

E quem veio da Espanha? Nada menos do que Vega Sicília, Alión da Ribera del Duero e Pintia da região de Toro. Com uma atração extra: a oportunidade de podermos comparar vinhos dessas grandes vinícolas com a de vinhos cult da vinícola Anima de Mallorca e os de Telmo Rodriguez. Uma aula de enologia comparada e puro prazer.

 

 



Da África do Sul, a vinícola de impronunciável nome Boekenhoutskloof, mas de deliciosos Porcupine de boa relação custo benefício e um Syrah 05 que já recebeu os 93 pts da Wine Spectator. Aliás, seu fundador, Marc Kent foi o responsável pela elevação dos vinhos africanos ao atual patamar de qualidade. É admirador confesso dos Syrah do Rhône e produz fantásticos Syrahs sem madeira nova. Seu Syrah 2005 Coastal Region, o das sete cadeirinhas do rótulo, está na categoria dos altamente recomendados da Decanter.

Da América do Sul vieram Nicolas Catena, da argentina Catena Zapata e Douglas Murray da chilena Montes. Murray estava no encontro da Wine Spectator, mas conversar mesmo, somente foi possível no da Mistral. Douglas Murray é co-fundador da Viña Montes com Aurélio Montes para quem Murray é o “homem espiritual”. Foi dele a idéia de chamar um especialista de feng shui para a construção da vinícola Apalta (sete milhões de dólares!) dedicada a vinificação de vinhos de alta qualidade como os Alpha, Folly e Purple Angel. No final, a experiência demonstrou ser muito positiva: “organiza as coisas naturalmente e esteticamente e mantém a energia lá, o que é ótimo”, confessa Aurélio. As altas notas que os vinhos de Apalta vêm recebendo não contradizem a idéia...

Zinfandel
Dos Estados Unidos, veio a Seghesio com seus Zinfandel, provavelmente o único vinho varietal que conta com um fã club de carteirinha. A uva americana Zinfandel, como a sul-africana Pinotage, desperta invariavelmente paixões extremadas de amor e ódio. O vinho é exótico, com uma fruta exuberante (todas as berries , cereja, ameixa, pimenta preta e branca, tostado, carvalho, chocolate, um escândalo de tantos aromas nada sutis) e alto teor alcoólico. É ame-o ou deixe-o!
Sou fã, embora ainda não de carteirinha, da Zinfandel, a “Uva Patrimônio da América”, como é conhecida. É uma uva difícil porque dá às pencas e como diz Ted Seghesio, pode produzir três safras por ano, amadurece irregularmente e a assemblage de uvas maduras com verdes produz vinhos sofríveis. O teor alcoólico é alto, jamais menor do que 15%, para garantir um vinho sem excessivo calor e doçura, equilibrado. Com menos do que isso, não se obtém dela nem os aromas. Por ser um vinho difícil de produzir, o Zinfandel é um vinho caro, aqui e lá na Califórnia.


A matriarca Ethel do clã dos Seghesio e Silvia Franco
A Seghesio, representada pela simpática Camille Seghesio, proprietária da família, neta do fundado e que fala portuguêsr, é vinícola pioneira no trato da Zinfandel junto com Ridge e Roseblum. Para produzir os melhores Zinfandel dos EUA, os Seghesio fazem 6 podas por ano e seu Zinfandel levou o prêmio Decanter em 2007 de melhor varietal. O Old Vine Zinfandel é esplêndido e elegante.

Em breve apresentaremos pequenos vídeos para que você possa ouvir o que enólogos e proprietários têm a dizer. E sugerimos que o faça saboreando um desses vinhos maravilhosos do catálogo da Mistral

 

 

 

 

 

* Silvia Cintra Franco é escritora, enófila e sócia da Associação Brasileira de Sommeliers .



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