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Tignanello e Solaia: um terroir
beijado por Deus.

Por Silvia Cintra Franco*

Se terroir é a expressão de um microclima, a Toscana deve ter tantos quantos as múltiplas facetas de suas inumeráveis colinas. O solo é argiloso, provavelmente o responsável, junto com o talento da gente da terra, pela cerâmica maravilhosa que ali se faz desde os tempos dos etruscos. Pedra também é o que não falta. São umas poucas dezenas de centímetros de terra e depois a videira topa com pedra. E de lá tira sua força e sabor.

 
Antinori
 
A visita à Tenuta Tignanello foi uma aula magna sobre o assunto. Até que a “portuguesa” de nosso GPS encontrasse a vinícola, subimos e descemos, fomos e voltamos pela estrada caprichosa que ia surfando colina atrás de colina à margem das vinhas de toda a comuna de Tignanello. Certamente a “portuguesa” do GPS europeu não era tão esperta quanto a de Napa Valley que sempre nos guiou sem confusões até as mais remotas wineries .

Tignanello é um marco na moderna história da vitivinicultura italiana. Junto com o Sassicaia, foi o primeiro vinho italiano a romper padrões e transgredir regulamentos, o primeiro “fora da lei”. Era vinho do coração do Chianti, mas não era chianti, pois além de não trazer a uva branca Trebbiano, passava por barrica (em vez de barril) com 20% de sua composição de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, totalmente fora dos regulamentos DOC. Sem classificação prevista, não passava de “vino da tavola”, a condição mais inferior, embora o preço subisse às alturas.

Solaia

O Tignanello foi também o primeiro a fazer a fermentação malolática na barrica. O 20% de Cabernet dá estrutura ao aroma da Sangiovese (80%). O Solaia, vinho cult e mais caro é o espelho invertido do Tignanello: 80% de Cabernet e 20% de Sangiovese.

Dizem que as colinas da região são beijadas por Deus e as pedras brancas que polvilham a vinha têm uma função importantíssima. O terroir da colina contém grande quantidade de material calcário, as pedras brancas alberese . Ao replantarem o Tignanello, quebraram essas pedras e fizeram um “agulheiro” em forma de trapézio: as pedras não somente circundam o pé da vinha, mas se aprofundam. Elas refletem a luz solar que bate nas folhas mais baixas, o que auxilia poderosamente na maturação da fruta. Além disso, as pedras também absorvem o calor e evitam a umidade, o mofo e a botrytis .

Colinas de Tignanello

O resultado é que a colheita começa uma semana antes das chuvas chegarem.

Finalmente duas notícias em off ali obtidas: a safra 2007 deve ser a melhor do Tignanello; e se você tem o 2003, beba-o jovem, pois nasceu maduro.


 

 

 

* Silvia Cintra Franco é escritora, enófila e sócia da Associação Brasileira de Sommeliers .



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