Se terroir é a expressão de um microclima,
a Toscana deve ter tantos quantos as múltiplas facetas de
suas inumeráveis colinas. O solo é argiloso, provavelmente
o responsável, junto com o talento da gente da terra, pela
cerâmica maravilhosa que ali se faz desde os tempos dos etruscos.
Pedra também é o que não falta. São
umas poucas dezenas de centímetros de terra e depois a videira
topa com pedra. E de lá tira sua força e sabor.
A visita à Tenuta Tignanello foi uma
aula magna sobre o assunto. Até que a “portuguesa” de nosso
GPS encontrasse a vinícola, subimos e descemos, fomos e voltamos
pela estrada caprichosa que ia surfando colina atrás de colina
à margem das vinhas de toda a comuna de Tignanello. Certamente
a “portuguesa” do GPS europeu não era tão esperta
quanto a de Napa Valley que sempre nos guiou sem confusões
até as mais remotas wineries .
Tignanello é um marco na moderna história da vitivinicultura
italiana. Junto com o Sassicaia, foi o primeiro vinho italiano a
romper padrões e transgredir regulamentos, o primeiro “fora
da lei”. Era vinho do coração do Chianti, mas não
era chianti, pois além de não trazer a uva branca
Trebbiano, passava por barrica (em vez de barril) com 20% de sua
composição de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc,
totalmente fora dos regulamentos DOC. Sem classificação
prevista, não passava de “vino da tavola”, a condição
mais inferior, embora o preço subisse às alturas.
O Tignanello foi também o primeiro a fazer
a fermentação malolática na barrica. O 20%
de Cabernet dá estrutura ao aroma da Sangiovese (80%). O
Solaia, vinho cult e mais caro é o espelho invertido do Tignanello:
80% de Cabernet e 20% de Sangiovese.
Dizem que as colinas da região são
beijadas por Deus e as pedras brancas que polvilham a vinha têm
uma função importantíssima. O terroir da colina
contém grande quantidade de material calcário, as
pedras brancas alberese . Ao replantarem o Tignanello,
quebraram essas pedras e fizeram um “agulheiro” em forma de trapézio:
as pedras não somente circundam o pé da vinha, mas
se aprofundam. Elas refletem a luz solar que bate nas folhas mais
baixas, o que auxilia poderosamente na maturação da
fruta. Além disso, as pedras também absorvem o calor
e evitam a umidade, o mofo e a botrytis .
O resultado é que a colheita começa uma semana antes
das chuvas chegarem.
Finalmente duas notícias em off ali obtidas: a safra
2007 deve ser a melhor do Tignanello; e se você tem o 2003,
beba-o jovem, pois nasceu maduro.