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Com a palavra, Beato
Por Beatriz Marques *

Um dos sommeliers mais aclamados do Brasil, Manoel Beato conta um pouco de suas impressões sobre o mundo vitivinícola.

 
Manoel Beato
 
Quando se fala em disputa entre sommeliers brasileiros, Manoel Beato nem mais é cogitado. É hors-concours. Já está há 16 anos na família Fasano e, a cada crescimento do grupo, mais abocanha responsabilidades: é diretor de sommeliers dos estrelados restaurantes Fasano, Gero, Parigi, Nonno Ruggero e Armani Café. Ao total, 8 profissionais estão sob sua batuta. Outra tarefa não menos importante é a seleção de todos os vinhos comercializados pela Enoteca Fasano.

Por ser um profissional mais do que tarimbado, Adegas & Vinhos foi atrás de Beato para indagá-lo a respeito do mundo de Baco e ainda conhecer mais seu trabalho.



Adegas & Vinhos - Com tantos anos de profissão e lidando com grandes consumidores de vinho, você pode nos dizer como mudou o perfil deste consumidor?

Manoel Beato - O consumidor mudou do destilado para o outro lado (do vinho). Bebe-se mais e melhor. A bola da vez é o Novo Mundo, porque há uma falsa idéia de que oferecem melhor custo-benefício.

A&V Por que é uma falsa idéia?

MB - A questão é saber escolher. O lado da elegância falta no Novo Mundo. É de suma importância esse lado.

A&V - No Fasano, quais são os vinhos mais solicitados pela clientela? Quais os tipos preferidos?

MB - Italianos e franceses baratos ou caros e os tops de Chile e Argentina.

A&V - Como você avalia o vinho nacional? Há um limite até onde se pode evoluir?

MB - O futuro a Baco pertence. Para o presente próximo vão melhorar muito como já está ocorrendo, mas dificilmente se fará o que chamamos de grande vinho.

A&V - O que impede o Brasil de fazer um grande vinho?

MB - Questões geográficas: clima e solo. Mas não sabemos daqui a muito tempo.

A&V - O Guia Larousse de Vinhos conta com sua avaliação de inúmeros rótulos. Muitos críticos acabam influenciando a compra de um vinho e são normalmente amados ou odiados. O consumidor sempre deve levar em consideração essas pontuações?

MB - Deve, porque vinhos são diferentes em relação à qualidade, assim como Guimarães Rosa é melhor do que Paulo Coelho. Porém o consumidor deve ter espírito crítico tanto para saber se o crítico sabe avaliar, quanto para ter preferências pessoais.

A&V - Você tem um vinho preferido?

MB - Sempre digo: a maior virtude do vinho é a diversidade, de tipo e estilos.

A&V - Qual vinho tornou-se uma surpresa a você?

MB – O vinho de Jerez (Espanha), que é vinho de caráter único e preço acessível; do Rhône (França), que, pelo que mostrou recentemente, tem rótulos entre os melhores do mundo; do Douro (Portugal), como os rótulos Redoma branco e os tintos Charme e Poeira; os Riesling alemães, que me surpreenderam quando os conheci há 10 anos e são os melhores brancos do mundo; e Bierzo (Espanha) pela delicadeza, que vai na contramão dos vinhos espanhóis.

A&V - O mercado hoje conta com muitas rolhas de plástico e outras que são cápsulas. Quais as vantagens e desvantagens em usá-las? Elas podem ameaçar o mercado da cortiça?

MB - Há muita controvérsia em relação ao uso delas para vinhos que podem envelhecer, mas se elas não se deteriorarem com o tempo, qual o problema de usá-las? Daqui a cem anos é bem provável que não haja mais rolha de cortiça.

A&V - Como você analisa a geração de sommeliers que está se formando? Os cursos oferecidos em faculdades e associações são suficientes para formar um profissional?

MB - A questão é muito complexa, mas há muito o que melhorar. O país tem problemas culturais que acabam refletindo em toda a educação profissionalizante.

A&V - Mas você acha que um curso pode formar um sommelier?

MB – Pode, mas não basta. Sommelier precisa de quilometragem e repertório.

A&V - A criação das Denominações de Origem na Europa resultou em grande melhora nos vinhos lá produzidos. Devemos fazer o mesmo para disciplinar nossa produção?

MB - Certamente sim.

A&B - As características dos "terroirs" do Chile justificam sua classificação em DO's?

MB - Há ajustes a fazer, mas é sempre bom delimitar áreas específicas.

A&B - Quais tipos de ajustes?  

MB - Os vinhos ainda são muito concentrados, são coloridos e às vezes falta a finesse. São muito ‘cheguei'. Agora que começaram a delimitar as regiões, os vinhos podem trazer características mais específicas de cada local. Aí que se ganha personalidade.


* Beatriz Marques é jornalista especializada em gastronomia.



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